Esse causo vem de uma história que deve ter passado de geração em geração. Mães e pais contam para os filhos. Avós e avôs para netos, talvez. Em cada ciclo ela se renova, conforme quem ouve – ou lê – e a lição que se pode adquirir dela.

“Eu não consigo lembrar quem que contava essa história. Acho que era o pai, em volta da fogueira, a gente sentava a fiarada. Mas não sei. Não consigo lembrar. Tinha um lenhador. Trabalhava muito esse lenhador, era muito honesto. Todo dia entrava na floresta com o seu machado lenhar. Todo dia estava lá, trabalhando. No caminho, ele cruzava uma cachoeira, um rio, eu acho. Sempre pelo caminho. Naquele rio contavam que tinha uma coisa mágica, que protegia o rio. Era a mãe d’água. E o homem passava sempre, pra ir lenhar. Todo dia. Mas teve um dia que ele foi passar, não lembro bem como conta o que aconteceu, que esse homem foi passar e derrubou o machado na água. Ele pensou ‘meu deus do céu, o que eu vou fazer pra levar sustento pra minha casa? Pros meus filhos?’. Ficou desesperado, afinal, como trabalha um lenhador sem a sua principal ferramenta? Era bem pobrezinho ele, não tinha como arrumar outro. Vendo o desespero do homem, que tanto acompanhou passando por ali para trabalhar, a mãe d’água apareceu pra ele. Perguntou o que tinha acontecido que tinha deixado ele tão preocupado e ele contou que perdeu o machado no rio. Ela falou pra ele esperar, que ia buscar o machado pra ele. Quando retornou da água, trouxe um machado de prata e perguntou pro homem se era aquele o machado que ele tinha perdido. Por um instante, ele pensou em todas as coisas que poderia comprar vendendo toda aquela prata, pra casa, pros filhos, pra ele. Mas achou melhor dizer a verdade. ‘Não senhora, não é esse, o meu é bem velho, tá meio gasto ate’. A mãe d’água então voltou pro rio pra procurar, saiu de novo com um machado na mão, dessa vez de ouro, e repetiu a pergunta. O homem se sentiu ainda mais tentado, imagina o que poderia fazer com o machado de ouro, então?!. Mas outra vez, achou melhor dizer a verdade. A mãe d’água então colocou o machado de ouro do lado do de prata, na beirada do rio, e voltou pras águas buscar o machado. Voltou com a ferramenta velha e usada e entregou ao homem. Disse: ‘aqui está o machado que é seu. Tome esses outros dois, e leve com você, por sua honestidade’. O homem voltou pra casa muito contente, com os machados todos. Arrumou a casa, comprou uns bicho pra criar e conseguiu sustentar a família sem tanto sacrifício. Sabendo da história da mãe d’água, um vizinho já bem afortunado, decidiu ir lá no rio e perder alguma coisa, interessado em receber alguma coisa valiosa e treinando como recusar as primeiras ofertas como o lenhador contou que tinha feito. O vizinho chegou lá, foi passando por cima do rio e deixou cair uma ferramenta. Pois bem. Contam que até hoje esse homem está lá, esperando alguma coisa aparecer.”

Tentando ajudar a memória do causista, procuramos registros dessa história. Encontrei uma versão que não continha a parte do vizinho. Possivelmente, ela foi introduzida em algum momento, por arte de um causista que talvez nunca pude conhecer.

Sabendo dessa diferença, meu interlocutor disse em tom de curiosidade “É, acho que era papai que contava essa história mesmo. Essa coisa de ensinar pra gente a parte de que não é bom ter inveja dos outros. Às vezes ele que inventou essa parte pra nós”.

Texto por Karina de Camargo.

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