Essa é uma história engraçada, vivida há pouco tempo e compartilhada com bons amigos, naquela casa peculiar, também conhecida como caixote (se você ainda não a conhece, leia esse texto).

Não contamos no último causo, mas o caixote era uma construção de esquina. Ele tinha muros muito baixos e a porta de entrada ficava posicionada bem de frente para a rua. Assim, qualquer movimento interno ou externo podia ser facilmente percebido nesses arredores. Posicionado na direção da porta, havia um orelhão.

É possível que esse texto tenha dois tipos de leitores: os que conhecem e já usaram esse dispositivo de comunicação e decoração urbana, e aqueles que estão pensando consigo mesmos “quem tem uma orelha grande na frente da casa?”.

Pois bem, para estes últimos: o orelhão é uma espécie de telefone público, mas não tão público assim, que requeria o uso de um cartão de plástico com créditos para fazer ligações. Se você fosse uma personalidade conhecida na sua região, poderia até receber ligações através dele, com um horário e data combinada pra se dirigir até aquele trambolho e conversar com a vizinhança toda de butuca na sua prosa.

Enfim, já era 2014, e o orelhão do caixote ainda funcionava. Vez ou outra tocava, mas nunca vi ninguém ir lá receber alguma ligação. Parecia destinado ao desgaste pelo tempo e falta de manutenção, como muitos outros ali da vizinhança. Até que um dia apareceu um senhor.

Aleatória e repentinamente, esse senhor ia fazer ligações tarde da noite. Ele chegava a ficar mais de uma hora conversando com alguém do outro lado da linha (pelo menos, acho que tinha alguém lá). O tempo de conversa já era em si um fato curioso, porque já não se via mais disponível os cartões com créditos para fazer ligação, o que nos levou a pensar que o senhor ligava a cobrar para seu contato do outro lado da linha.

Além do tempo e do horário, seu tom e volume de voz era um tanto inconveniente. Ele falava alto demais e com muito entusiasmo, parecia até que a gente ouvia palestras motivacionais sem hora marcada.

Um dia ele gritou tanto, mas tanto, e tão tarde da noite que fomos até lá pra tentar reclamar, mas de nada adiantou, porque ele só ouvia a si mesmo e nem notou nossa presença. Colocamos uma música dentro de casa para tentar abafar o volume da sua voz, mas perdemos a competição miseravelmente. A garganta do senhor era potente.

Até que no dia seguinte, enroscado no portão, tinha uma caixa de chocolates e um bilhete pedindo desculpas. O chocolate parecia gostoso, mas algumas embalagens pareciam meio abertas, adulteradas. Não tivemos coragem de comer, pensamos que ele poderia não ter gostado da música e queria nos pregar uma peça. Mas agora, pensando com calma na história, pode até ter sido uma desconfiança à toa e que ele tenha pensando mesmo em ser gentil conosco. Nunca iremos saber. E você, teria comido o chocolate?

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