Crocodilo

O causo de hoje é uma história contada em primeira pessoa. Daquelas de coisa vivida na infância, em data e idade meio apagadas pela lembranças, mas que ao mesmo tempo marcam de um jeito que da até pra se transportar pra aquela situação.

Pois bem, estava eu aprontada pra sair de casa com a minha mãe em uma tarde ensolarada, toda feliz e contente que ia passear não me lembro pra onde – acho que alguma loja tipo 1,99, não tenho certeza.

Enquanto minha mãe se aprontava, fechava as janelas e fazia todo o ritual necessário quando você mora em um lugar que não tem cerca nem portão, fiquei eu toda serelepe pimpona sentadinha no barranco perto da casa não sei por qual razão. Acho que a terra estava recém cortada pra construção da casa ao lado, não vou saber dizer ao certo essa parte. Mas o fato é que tinha se formado alguns degraus no barranquinho e eu consegui subir e gostei de ficar lá olhando a paisagem de uma altura que um adulto, talvez, pudesse olhar. Pra mim era super alto na época.

A essa altura do acontecimento, minha mãe já tinha trancado a porta da chegada da casa, a que ficava mais próxima do barranco. Ela tinha um peculiaridade importante pra essa história: por alguma razão o trinco havia quebrado do lado de fora, então tinha só um pedacinho de metal pra agarrar e tentar girar o que sobrou. Se você já precisou fazer isso, imagine uma mão de uns cinco ou seis anos tentando essa aventura. Quase impossível, né?!

Pois bem. Estava lá no barranquinho esperando minha mãe até que comecei a ouvir alguns sons no capim por perto. Olhei para baixo, para os lados, nada vi. Aí é que me ocorreu de olhar para cima. Péssima decisão.

Dei de cara com um olho esbugalhado emoldurado por uma pele grossa, meio marrom, meio branca, com umas pintas enormes de assustadoras. O bicho passou muito perto da minha cabeça. Perto que deu pra ficar uns instantes paralisada de medo até ver as patonas dele se espalharem do meu lado pra descer o barranco sem nem se abalar pela minha presença.

Depois que o bicho saiu é que levantei e saí berrando a minha mãe. Queria entrar em casa correndo, por algum motivo parecia que o bicho estava atrás de mim – medo, o nome disso é medo total… Mas tinha o trinco da porta que não abria direito. Que desespero. E nem ia abrir, porque minha mãe já tinha trancado a casa toda e estava chegando em minha direção.

Toda assustada ela me perguntou o que tinha acontecido. Depois de uns soluços e engasgos de choro e agitação, eu virei pra ela e disse:

-tinha um co-crodilo! um co-crodilo! E repeti várias vezes assim mesmo, co-crodilo.

Não lembro bem, mas acho que ela riu – se não nesse dia, contando pras pessoas a aventura. Até hoje ela ri, na verdade.

Eu demorei um pouco pra entender o motivo do riso: não sabia se era do erro da pronúncia (quem que fala co-crodilo?!) ou do fato de que na verdade era um lagarto pequenininho que não fazia mal algum. Talvez devesse ser por um fato que eu só fui descobrir muito tardiamente: nem existe co-crodilo aqui no Brasil (crocodilo também não).

Obs.: não sento mais em barranquinhos nem ando com tranquilidade perto de matinhos em dia de sol, vai que os colegas resolvem dar um oizinho reptiliano.

Texto por Karina de Camargo.

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