Esse causo vem de uma história que deve ter passado de geração em geração. Mães e pais contam para os filhos. Avós e avôs para netos, talvez. Em cada ciclo ela se renova, conforme quem ouve – ou lê – e a lição que se pode adquirir dela.

“Eu não consigo lembrar quem que contava essa história. Acho que era o pai, em volta da fogueira, a gente sentava a fiarada. Mas não sei. Não consigo lembrar. Tinha um lenhador. Trabalhava muito esse lenhador, era muito honesto. Todo dia entrava na floresta com o seu machado lenhar. Todo dia estava lá, trabalhando. No caminho, ele cruzava uma cachoeira, um rio, eu acho. Sempre pelo caminho. Naquele rio contavam que tinha uma coisa mágica, que protegia o rio. Era a mãe d’água. E o homem passava sempre, pra ir lenhar. Todo dia. Mas teve um dia que ele foi passar, não lembro bem como conta o que aconteceu, que esse homem foi passar e derrubou o machado na água. Ele pensou ‘meu deus do céu, o que eu vou fazer pra levar sustento pra minha casa? Pros meus filhos?’. Ficou desesperado, afinal, como trabalha um lenhador sem a sua principal ferramenta? Era bem pobrezinho ele, não tinha como arrumar outro. Vendo o desespero do homem, que tanto acompanhou passando por ali para trabalhar, a mãe d’água apareceu pra ele. Perguntou o que tinha acontecido que tinha deixado ele tão preocupado e ele contou que perdeu o machado no rio. Ela falou pra ele esperar, que ia buscar o machado pra ele. Quando retornou da água, trouxe um machado de prata e perguntou pro homem se era aquele o machado que ele tinha perdido. Por um instante, ele pensou em todas as coisas que poderia comprar vendendo toda aquela prata, pra casa, pros filhos, pra ele. Mas achou melhor dizer a verdade. ‘Não senhora, não é esse, o meu é bem velho, tá meio gasto ate’. A mãe d’água então voltou pro rio pra procurar, saiu de novo com um machado na mão, dessa vez de ouro, e repetiu a pergunta. O homem se sentiu ainda mais tentado, imagina o que poderia fazer com o machado de ouro, então?!. Mas outra vez, achou melhor dizer a verdade. A mãe d’água então colocou o machado de ouro do lado do de prata, na beirada do rio, e voltou pras águas buscar o machado. Voltou com a ferramenta velha e usada e entregou ao homem. Disse: ‘aqui está o machado que é seu. Tome esses outros dois, e leve com você, por sua honestidade’. O homem voltou pra casa muito contente, com os machados todos. Arrumou a casa, comprou uns bicho pra criar e conseguiu sustentar a família sem tanto sacrifício. Sabendo da história da mãe d’água, um vizinho já bem afortunado, decidiu ir lá no rio e perder alguma coisa, interessado em receber alguma coisa valiosa e treinando como recusar as primeiras ofertas como o lenhador contou que tinha feito. O vizinho chegou lá, foi passando por cima do rio e deixou cair uma ferramenta. Pois bem. Contam que até hoje esse homem está lá, esperando alguma coisa aparecer.”

Tentando ajudar a memória do causista, procuramos registros dessa história. Encontrei uma versão que não continha a parte do vizinho. Possivelmente, ela foi introduzida em algum momento, por arte de um causista que talvez nunca pude conhecer.

Sabendo dessa diferença, meu interlocutor disse em tom de curiosidade “É, acho que era papai que contava essa história mesmo. Essa coisa de ensinar pra gente a parte de que não é bom ter inveja dos outros. Às vezes ele que inventou essa parte pra nós”.

Texto por Karina de Camargo.

Essa é uma história daquelas da vida cotidiana e das pequenas belezas que ela tem.

Já fazia um certo tempo que a gente queria ter um cachorrinho em casa. Volta e meia a gente se pegava olhando vídeo, fotografia, tudo quanto era coisa de cachorrinho correndo, comendo, dormindo, fazendo careta. Mas a vontade sempre esbarrava no receio e na responsabilidade que ter um animalzinho traria. Pois bem, até que um par de olhinhos mudou isso tudo.

Recebemos a (maravilhosa) indicação de uma amiga sobre filhotinhos para adoção. No anúncio, afirmava que eles eram meio vira-lata, meio pinscher. A ideia do tamanho pequenino nos chamou a atenção. Então, com um pouco mais de entusiasmo do que medo naquele dia, entramos em contato para adotar uma cachorrinha.

Na foto, ela era um cisco. Pequena que só. Com pelo branco e umas manchinhas pretas. Arrumamos carona com um amigo e fui buscar a boniteza. Estava preocupada porque o tutor havia dito que a mãe tinha abandonado os filhotes, que ela já estava comendo ração com menos de trinta dias de idade, queria vê-la logo.

Chegando lá, o encontro não foi bem como o idealizado. A cachorrinha que tinha escolhido não estava mais lá, o tutor não sabia dizer se tinha doado ou se tinha morrido. Me ofereceu outra no lugar. Quando ele virou as costas, pensei “pronto, não quero mais, nenhuma vai ser linda como ela”. Caí do cavalo em cinco segundos. 

Quando olhei pra aquele bichinho todo torto, com a pança roliça e olhinhos remelentos virados pra mim, eu só percebi que abaixei e peguei ela de uma vez. Era uma coisinha tão fofa, suja e pequena, que eu não consigo descrever a sensação, mas sinto ela toda vez que conto essa história.

Antes mesmo de chegar em casa, percebi que a pança não era sinal de saúde. Tinha muitas pulgas e carrapatos, mal ficava em pé sustentando seu peso. Com muito amor e paciência oferecemos água e ração. Tiramos aos poucos os bichinhos com uma pinça, oferecemos mamão pra barriguinha funcionar. Ela ainda não parecia bem. Tremia muito, e olha que nem frio estava.

Até que um de nós teve uma ideia. Pegou uma meia velha, bem coloridinha, cortou as pontas e fez o furo pros bracinhos. Vestimos nela. Parecia uma pelúcia de pijama, com a meia enrolando na barriga de tão inchada que ela tava.

Aos poucos ela foi acalmando os tremores. Aceitou água. Conseguiu se levantar. Imagine a alegria de dois adultos vendo um bichinho minúsculo sustentando o peso pela primeira vez. Ela nos adotou naquele dia. E adotou as meias também.

Até certa idade, ela ainda vestia meias. Seria o look ideal, já que o pai era um pinscher… doce engano. Cá estamos, 15kg e uns 40cm maior, com uma cachorra adulta com espírito de filhote, que não pode ver uma meia dando sopa que já corre pegar pra chamar para brincar. Lembro exatamente o que senti naquele dia. Ela, acho que de alguma forma, lembra também.

Texto por Karina de Camargo e Edinei Oliveira Filho

A bicicleta

Essa história, como várias das que temos contado por aqui se passou numa fazenda do interior de São Paulo. Bom, se você meu caro leitor, deu uma passada por outros causos aqui pelo site deve ter se deparado com o causo da montanha-russa se lembra? Pois bem, o causo da bicicleta tem suas semelhanças com ele.

Tinha essa descida na fazenda, descida grande, dessas bem compridas mesmo, de terra batida, bem inclinada. Um moço, lá na sua juventude entre a adolescência e vida adulta que morava na tal fazenda, costumava passar por essa descida. Essa passagem tinha alguns motivos diversos, um deles, porque fazia parte da sua passagem, era o seu caminho no dia a dia. Um outro, e esse é o mais importante aqui para nossa história, caro leitor, é que ele, bom, como posso dizer, tinha uma “queda” por uma moça que morava numa casa que se situava ao longo dessa tal descida.

Bom, o moço estava a andar de bicicleta pela fazenda, indo e vindo, até que em seus caminhos, seja lá por qual motivo, tinha a descida pela frente. Como num outro dia qualquer ele se pôs a descê-la, já que era um costume!

Começou a descida com tranquilidade, mas no decorrer dela a bicicleta foi ganhando velocidade, o que tornou um pouco mais difícil de guiar, com isso, o moço não sabe ao certo, se bateu numa pedra, ou passou por um buraco, se simplesmente perdeu a direção por conta da velocidade e da inclinação da descida, mas o que ele sabe contar é que perdeu o controle e caiu.

Na verdade, ele caiu perto de uma casa, ou melhor dizendo, caiu dentro de uma casa. Imagine a cena caro leitor, porque a porta da casa dava direto para a rua e estava aberta… Pois bem, o moço foi para lá dentro da sala da casa. Entrou com tudo e ficou caído no chão.

Essa casa era a que você está pensando mesmo, a casa da moça de quem ele gostava, mas será que ela o viu caindo? Será que ela estava em casa? Pior que sim!

Ela estava em casa, e sim, ela o viu caindo, pois ela estava jantando na sala bem na hora da aterrisagem do moço com bicicleta e tudo. E ela não estava sozinha, estava com toda a sua família presenciando a cena! Imagine você a vergonha do moço! O romance parece que não vingou, mesmo ele tendo uma tremenda queda por ela.


Texto por Edinei de Oliveira .

O causo de hoje é meio história de pescador meio história verídica – não tenho exatamente como saber. Mas é uma daquelas memórias que trazem contentamento através da vida simples e da leveza das coisas.

“Esses dias veio um rapaz lá no serviço, com o pai dele. O pai veio mais pra pescar que pra ajudar no serviço. E às vezes eu pesco lá também, arrumo uma varinha e vou lá pegar uns pexinho. Esses dias peguei dessa trairinha da barriga branca, ela é menos espinhenta que a de barriga preta. Gostosinha ela. Daí, resolvi ir lá com o homem pescar. Ele chegou na beira da represa, puxou uma maletinha profissional, toda chique. Anzol, isca de não sei o quê, varinha telescópica. Comprida a vara, devia alcançar uns cinco metros. O homem fez até pose pra jogar o anzol na água. Caiu lá na frente. Puf na água a isca. Daí né, cheguei lá com a varinha de bambu, anzol enrolado no arame, joguei lá na beirada da água. Mas alcança longe até ela. Daqui a pouquinho deu uma mexidinha lá, puxei, fisgou rapaz. Na horinha que coloquei a isca na água já pegou. E fui pegando mais. O homem, com a vara chique, não pegava nada. Coitado. No fim, acabei mandando uns peixe lá pra ele comer. Esses dias que o filho dele foi saber que não foi ele que caçou os peixe. O pai dele falou ‘eu lá, com vara profissional, tudo arrumado, e o cara com a varinha mixuruca pescando um monte de peixe. Ah vá. Tava remendada com fita isolante na ponta até. Como que pegou com aquela vara?” Daí falei pro rapaz, ‘sabe o que que é, que seu pai não sabia?! A fita era mágica.”

Tô precisando pegar a marca dessa fita aí, porque recentemente gastei umas boas horas tostando no sol e consegui só duas trairinha pequena. Ainda sim, pesquei mais que o homem da tralha de pesca profissional – risos.

Texto por Karina de Camargo

Essa é uma história engraçada, vivida há pouco tempo e compartilhada com bons amigos, naquela casa peculiar, também conhecida como caixote (se você ainda não a conhece, leia esse texto).

Não contamos no último causo, mas o caixote era uma construção de esquina. Ele tinha muros muito baixos e a porta de entrada ficava posicionada bem de frente para a rua. Assim, qualquer movimento interno ou externo podia ser facilmente percebido nesses arredores. Posicionado na direção da porta, havia um orelhão.

É possível que esse texto tenha dois tipos de leitores: os que conhecem e já usaram esse dispositivo de comunicação e decoração urbana, e aqueles que estão pensando consigo mesmos “quem tem uma orelha grande na frente da casa?”.

Pois bem, para estes últimos: o orelhão é uma espécie de telefone público, mas não tão público assim, que requeria o uso de um cartão de plástico com créditos para fazer ligações. Se você fosse uma personalidade conhecida na sua região, poderia até receber ligações através dele, com um horário e data combinada pra se dirigir até aquele trambolho e conversar com a vizinhança toda de butuca na sua prosa.

Enfim, já era 2014, e o orelhão do caixote ainda funcionava. Vez ou outra tocava, mas nunca vi ninguém ir lá receber alguma ligação. Parecia destinado ao desgaste pelo tempo e falta de manutenção, como muitos outros ali da vizinhança. Até que um dia apareceu um senhor.

Aleatória e repentinamente, esse senhor ia fazer ligações tarde da noite. Ele chegava a ficar mais de uma hora conversando com alguém do outro lado da linha (pelo menos, acho que tinha alguém lá). O tempo de conversa já era em si um fato curioso, porque já não se via mais disponível os cartões com créditos para fazer ligação, o que nos levou a pensar que o senhor ligava a cobrar para seu contato do outro lado da linha.

Além do tempo e do horário, seu tom e volume de voz era um tanto inconveniente. Ele falava alto demais e com muito entusiasmo, parecia até que a gente ouvia palestras motivacionais sem hora marcada.

Um dia ele gritou tanto, mas tanto, e tão tarde da noite que fomos até lá pra tentar reclamar, mas de nada adiantou, porque ele só ouvia a si mesmo e nem notou nossa presença. Colocamos uma música dentro de casa para tentar abafar o volume da sua voz, mas perdemos a competição miseravelmente. A garganta do senhor era potente.

Até que no dia seguinte, enroscado no portão, tinha uma caixa de chocolates e um bilhete pedindo desculpas. O chocolate parecia gostoso, mas algumas embalagens pareciam meio abertas, adulteradas. Não tivemos coragem de comer, pensamos que ele poderia não ter gostado da música e queria nos pregar uma peça. Mas agora, pensando com calma na história, pode até ter sido uma desconfiança à toa e que ele tenha pensando mesmo em ser gentil conosco. Nunca iremos saber. E você, teria comido o chocolate?

A bola de fogo

Esse causo nos traz novamente uma história daquela fazenda do interior de São Paulo. Lá, por vezes, alguns moradores ficavam durante a noite parados em algum canto dos diversos terreiros que a fazenda tinha.

Bom, nesse lugar ficavam esses moradores da fazenda, papeando, conversando sobre as coisas do dia a dia, brincando, rindo, enfim, fazendo o que se faz numa roda com amigos quando a tranquilidade de uma vida no campo proporciona.

Mas alguma coisa acontecia com certa constância quando esse pessoal estava a conversar. Era algo que os deixava bem… como posso colocar… os deixava encafifados, cismados, enfim, qualquer desse adjetivos que remetem a estranhezas.

Alguns ficavam com medo, pensavam “será que se trata de alguma coisa sobrenatural? Talvez fosse a mula-sem-cabeça. Ou o Boitatá”. Quem sabe o que poderia ser uma bola de fogo se mexendo no ar, ao longe, pra lá das árvores? Era no mínimo bem estranho.

Enfim, passavam-se dias em que a contação de causos entre os moradores da fazenda não era acompanhada por nenhuma luz ao fundo. Mas tinha vezes que ela aparecia, subia, fazia uma curva, e desaparecia misteriosamente.

O que era mais curioso pra eles é que isso ocorria sempre no mesmo lugar, sempre fazendo o mesmo estranho movimento atrás das árvores… Qualquer coisa que fosse, parecia gostar muito daquele lugar.

Passados muitos anos, um rapaz que na época da bola de fogo era um jovenzinho morador da fazenda e que já não morava mais nas redondezas, voltou ao seu lugar de infância para passear e rever alguns familiares. Ele decidiu ir para uma outra cidade que tinha próxima a fazenda.

Bom, na rodovia à caminho dessa cidade vizinha tinha uma subida longa e ao longo dela uma grande curva. Pois bem, esse jovem, já não mais tão jovem, estava subindo com seu carro à noite, com as lanternas acessas. Ao fazer a curva percebeu que carros que passavam ali, com seus faróis ligados ao longe, pareciam a tal bola de fogo que há anos foi avistada. Eles faziam o mesmo movimento.

Aí, está! Pensou ele. A tal bola de fogo eram os carros, com suas lanternas acesas que às vezes passavam por aquela curva que durante a noite era avistada da fazenda.

Você pode estar achando um pouco óbvia a constatação ou bobo o engano. Devo salientar, caro/a leitor/a, que na época em que os moradores viam essa tal bola de fogo, havia poucos carros viajando entre as cidades. Havia poucos carros, de modo geral. Os tempos eram outros e, portanto, os moradores não se atentaram a essa possibilidade.

Esse jovem não tão jovem mais, enfim, descobriu o que tanto deixava os moradores da fazenda cismados, mas não morava mais por lá, então não pôde dividir com todos os outros a sua bela descoberta.

Texto por Edinei de Oliveira .

Crocodilo

O causo de hoje é uma história contada em primeira pessoa. Daquelas de coisa vivida na infância, em data e idade meio apagadas pela lembranças, mas que ao mesmo tempo marcam de um jeito que da até pra se transportar pra aquela situação.

Pois bem, estava eu aprontada pra sair de casa com a minha mãe em uma tarde ensolarada, toda feliz e contente que ia passear não me lembro pra onde – acho que alguma loja tipo 1,99, não tenho certeza.

Enquanto minha mãe se aprontava, fechava as janelas e fazia todo o ritual necessário quando você mora em um lugar que não tem cerca nem portão, fiquei eu toda serelepe pimpona sentadinha no barranco perto da casa não sei por qual razão. Acho que a terra estava recém cortada pra construção da casa ao lado, não vou saber dizer ao certo essa parte. Mas o fato é que tinha se formado alguns degraus no barranquinho e eu consegui subir e gostei de ficar lá olhando a paisagem de uma altura que um adulto, talvez, pudesse olhar. Pra mim era super alto na época.

A essa altura do acontecimento, minha mãe já tinha trancado a porta da chegada da casa, a que ficava mais próxima do barranco. Ela tinha um peculiaridade importante pra essa história: por alguma razão o trinco havia quebrado do lado de fora, então tinha só um pedacinho de metal pra agarrar e tentar girar o que sobrou. Se você já precisou fazer isso, imagine uma mão de uns cinco ou seis anos tentando essa aventura. Quase impossível, né?!

Pois bem. Estava lá no barranquinho esperando minha mãe até que comecei a ouvir alguns sons no capim por perto. Olhei para baixo, para os lados, nada vi. Aí é que me ocorreu de olhar para cima. Péssima decisão.

Dei de cara com um olho esbugalhado emoldurado por uma pele grossa, meio marrom, meio branca, com umas pintas enormes de assustadoras. O bicho passou muito perto da minha cabeça. Perto que deu pra ficar uns instantes paralisada de medo até ver as patonas dele se espalharem do meu lado pra descer o barranco sem nem se abalar pela minha presença.

Depois que o bicho saiu é que levantei e saí berrando a minha mãe. Queria entrar em casa correndo, por algum motivo parecia que o bicho estava atrás de mim – medo, o nome disso é medo total… Mas tinha o trinco da porta que não abria direito. Que desespero. E nem ia abrir, porque minha mãe já tinha trancado a casa toda e estava chegando em minha direção.

Toda assustada ela me perguntou o que tinha acontecido. Depois de uns soluços e engasgos de choro e agitação, eu virei pra ela e disse:

-tinha um co-crodilo! um co-crodilo! E repeti várias vezes assim mesmo, co-crodilo.

Não lembro bem, mas acho que ela riu – se não nesse dia, contando pras pessoas a aventura. Até hoje ela ri, na verdade.

Eu demorei um pouco pra entender o motivo do riso: não sabia se era do erro da pronúncia (quem que fala co-crodilo?!) ou do fato de que na verdade era um lagarto pequenininho que não fazia mal algum. Talvez devesse ser por um fato que eu só fui descobrir muito tardiamente: nem existe co-crodilo aqui no Brasil (crocodilo também não).

Obs.: não sento mais em barranquinhos nem ando com tranquilidade perto de matinhos em dia de sol, vai que os colegas resolvem dar um oizinho reptiliano.

Texto por Karina de Camargo.

O Caixote

Bom, esse causo não vai ser de tempos mais antigos, vai na verdade, ser só um pouco atrás, uns 7 anos. Puxa, na verdade já faz um tempo!

Uma época mais cheia de esperança, talvez. Uma esperança de jovens recém ingressantes na universidade pública, que saíram de um mesmo cursinho popular, foram para a mesma cidade começar sua vida acadêmica.

Decidiram, esses amigos, alugar uma pequena casa, com um gramado e um belo pé de limão para morar. Como são difíceis os trâmites para alugar uma residência! Deu um trabalho enorme com documentações e tudo mais junto à imobiliária. Mas enfim, conseguiram alugar sua casinha, iria ser ótimo aquele lugar! Gramadinho verde, pé de limão, cadeira de praia na calçada…

Parecia que estava tudo ótimo, nova casa, tudo certo, mudança no caminhão, contrato em mãos, mas…

Ao chegar na casa, outra família tinha também alugado. Metade da mudança já estava lá dentro até. Todo mundo pensou “e agora?”.

Não puderam morar lá. A imobiliária escolhida, aparentemente, fez várias coisas erradas naqueles trâmites complicados, a dona da casa também alugou para duas pessoas ao mesmo tempo. Depois de muito reboliço, outra imobiliária entrando na cena, ajeitaram uma outra casa pra esses jovens.

Uma casa pequena, muito diferente da que tinha escolhido. Ela era peculiar, para falar bem a verdade, parecia um caixote. As paredes eram finas, a arquitetura retangular, acabamento esquisito. Tinha três quartos meio pequenos, localização mais do que excelente, perto de mercado, rodoviária, tudo. Mas isso não retirava sua estranheza. Ao pisar na sala tremia um pouco da casa toda, ela tinha nos fundos uns pilares bem finos que a seguravam, uns canos ao ar livre, um tranca bem singular na porta da frente, tipo uma gambiarra com um barra de ferro que se alguém tentasse chutar iria quebrar a perna. O acessório engenhoso tentava dar segurança pra uma porta que na verdade era de usar dentro de casa, dessas que parecem dois papelões ocos colados em volta de uns pauzinhos.

Importante dizer, que ao lado da cozinha, bem no fundo da casa, tinha a lavanderia. Modéstia chamar de lavanderia, era um corredor que sobrou, bem pequeno, onde colocaram um tanque. Esse pessoal instalou lá a sua máquina de lavar.

No primeiro dia na casa, limparam toda ela – estava abandonada, destinada à demolição. Os móveis foram colocados no lugar, teve uma pizza na janta (que merece um causo à parte), o mato que crescia na calçada foi arrancado, dando uma lustrada, o caixotinho até criou vida e cor.

No outro dia, bem cedo, lá pelas 7 da manhã de um domingo, todos acordaram. Colocaram algumas coisas na máquina para lavar e se juntaram à mesa do novo espaço pra compartilhar. Hora do café da manhã!

 Tudo estava muito bonito, toalha nova na mesa arrumadinha. Várias coisas gostosas para comer, bolinhos recheados (que adoro), pão, requeijão, um ótimo café (barato, porém gostoso) que foi apreciado na maior paz que poderia existir.

Depois de um bom tempo sentados à mesa, chinelos apareceram do nada na sala a boiar.

“Se perguntaram, que coisa estranha, oque será que está acontecendo?”

“Será que deu algum problema no encanamento? Está vertendo água do chão?”

Lembra da lavanderia no corredorzinho? Pois bem, ela ficava no final da casa. Depois tinha a cozinha, passava por um corredor com o banheiro, os três quartos até chegar na sala. O tanque no qual foi instalado a máquina de lavar estava com a tampa que não deixava escoar…

O tanque encheu, transbordou. Encheu de água na cozinha, que não era muito pequena. Depois encheu o banheiro. Passou por todo o corredor. Encheu a sala toda até chegar nos jovens que tomavam seu tranquilo café da manhã depois de um dia anterior cheio de desventuras. Por algum motivo o caixote era meio torto para um lado, o que fez com que toda a água se acumulasse nos cômodos até chegar no final da sala onde eles estavam.

Imagine o susto de colocar os pés no chão e sentir como se estivesse dentro de uma bacia cheia d’água? O dia que era pra descanso pós mudança foi todo utilizado para aproveitar toda a água desperdiçada dando uma caprichada extra na faxina.

Já adianto que o caixotinho tem causo até demais da conta pra gente prosear, viu?!

Texto por Edinei de Oliveira e Karina de Camargo.

Borboleta

Volta e meia esse causo reaparece para mim a partir de pelo menos dois contextos. O primeiro deles, de relação mais direta com o assunto, nas prosas sobre flores e natureza. O segundo, de significado menos preciso, meio solto e escorregadio dependendo do ouvinte, pra falar sobre pequenezas da vida. Desde o crescimento das crianças até os efeitos do agronegócio no nosso horizonte mais próximo.

“Eu tinha uns pé de flor bonito ali na frente da casa. Colorido. Dava uns cachinho cheio de flor miudinha, bem perfumada (parece que é lantana o nome). Mais antigamente, aquilo enchia de borboleta quando dava sol. Mais um monte. Um monte mesmo. De toda cor. Vermelha, marrom, azul, rajada, amarelinha. Muita borboleta. Daí esse meu neto, que era pequeno, ficava olhando as borboleta. Ele ficava encantado da quantia de borboleta que tinha. Aí um dia ele apareceu em casa com uma sacolinha e passava correndo com a sacolinha perto das borboleta tentando caçar alguma. Ele conseguiu pegar uma, foi lá na casa dele e soltou a borboleta lá. Ela saiu da sacola e foi embora. Ele ficou nervoso, que queria que na casa dele tivesse borboleta igual tem na casa da vó. Daí, tadinho, chamei ele e falei ‘fio, a vó vai dar uma mudinha de flor pra você plantar na lá sua casa, daí as borboleta vão começar a ir lá também. Elas tem que ter flor pra ir chupar o docinho, sem a flor elas não vão.’ E tirei uma mudinha pra ele. Ele levou lá e plantou a muda, tentou pegar mais borboleta. Nem sei até se apareceu borboleta lá na flor dele. Mas ele ficou tão contente com a mudinha. Hoje em dia a gente quase não vê mais borboleta. Foi acabando tudo por causa de veneno, os mato que vai diminuindo. Era bonito de ver, aquela nuvem de borboleta, de toda cor”.

E para você, o que esse causo despertou?

Texto por Karina de Camargo.

Galanteio

Esse causo é mais um daqueles que me vieram em forma de prosa, tem o retrato da dureza de outros tempos, do peso do agora, e da saudade que dá da lindeza que a simplicidade da vida tem – basta a gente saber reencontrar.

Galanteio: ato ou efeito de galantear, cortejar.

“Antigamente, quando os rapaz ia cortejar as moça na casa, pedir permissão pro pai pra namorar, pra casar, eles prometia levar a moça a sério, cuidar, dar presente. Quando fui casar, meu marido prometeu pro meu pai que na nossa casa não ia faltar lenha no canto e água no pote”.

Bem, dependendo da sua idade, você deve estar se perguntando o sentido de tal promessa. Pois bem, há até pouco tempo, a vida rural no Brasil foi marcada por muitas particularidades. Entre elas a falta ou dificuldade de acesso à itens que hoje entendemos como indispenáveis, como a água encanada e o gás de cozinha. Pois bem, continuemos…

“É. Não faltou mesmo, nem lenha no canto, nem água no pote. Mas eu é que saía cedo, entrava no mato pra cortar lenha. Vinha com aquele feixe grande, guardava no canto. Também eu que ia buscar água. A roupa ia lavar lá no rio. Levava a baciada de roupa, estendia nas pedra pra quarar. É que tinha as fiarada, o pai saía cedo pro serviço. Por aqui foi sempre as mulher que cortava lenha, arrumava água…”

Depois de uma pausa retrospectiva:

“É. Cada coisa que a gente lembra. Agora as coisas tão mais fácil. Aperta um botão fica pronto. A máquina de lavar roupa apita, só tem que levar no varal. Mas parece que naquele tempo a gente era mais feliz. Vivia em outro ritmo as coisa.”

Em um outro dia, talvez um pouco longe desse:

“Ih, parece que tá acabando o gás. Viu, troque o botijão de gás pra mim.”

Texto por Karina de Camargo

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